Afetos e preceptos além da crítica

Download PDF

Raphael Palermo
The Ohio State University

Resenha de Lopes, Denilson. Afetos, relações e encontros com filmes brasileiros contemporâneos. São Paulo: UCITEC Editora, 2016, pp. 200.

Afetos, relações e encontros com filmes brasileiros contemporâneos chama a atenção pelo caráter pessoal dado pelo autor Denilson Lopes. É a partir de sua experiência e de suas impressões que ele analisa filmes da última década do cinema brasileiro que de alguma forma o impactaram. Dividido em dez ensaios, é mais do que uma importante contribuição para professores, pesquisadores e estudantes do assunto. Por um lado, o livro dialoga com uma crescente classe de cineastas que produz filmes considerados “de garagem”. Trata-se de produções, na sua maioria, independentes que não gozam de sucesso comercial, de padrão estético ou de público. Denilson não se guia por rótulos. Prefere escrever “a partir de filmes, mas não sobre cinema” (24), talvez para evitar a influência de uma tradição cinéfila sob os parâmetros de um cinema de “retomada” ou da “pós retomada”. Já por outro lado, colabora com a literatura produzida sobre afetos e o cinema latino-americano como já feita por Laura Podalsky em The Politics of Affect and Emotion in Contemporary Latin American Cinema (2011) e por Marcelo Ikeda e Dellani Lima Cinema de garagem: um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI (2011).

No primeiro ensaio, “Encontros com filmes brasileiros contemporâneos”, o autor faz uma reflexão sobre a posição marginal que os filmes de garagem ocupam não somente pelo “fracasso” comercial como o autor sugere, mas também pela circulação ainda tímida dessas produções em festivais mundo afora. Muitos não disfrutaram do sucesso de crítica e nem vingaram como “alternativa estética”, pois ainda há “o culto pela celebridade e a concentração de grandes conglomerados de entretenimento” (26). Contudo, o autor está menos preocupado em dar juízos de valor e empenha-se em discutir como as cenas, imagens e narrativas o sensibilizaram. Para ele, esses filmes vão além da crítica. São propagadores de afetos e relações individuais e coletivas as quais ele se refere como “afetos pictóricos; afetos, encontros, relações; afetos queer”.

Dentro desde âmbito, Denilson inicia o segundo ensaio com uma breve discussão sobre a literatura produzida sobre afeto desde a virada afetiva (affective turn) no novo milênio. Embora muitos teóricos enfatizam que haja uma separação entre emoção e afeto, sendo o primeiro uma expressão consciente e o segundo mais um impulso impessoal, o autor não se aprofunda no assunto. Na verdade, está mais interessado na pergunta que guiará o restante do livro: “em que medida a discussão sobre os afetos que vêm desde Spinoza até os estudos de gênero (gender) coloca questões para a arte?” (34) e mais especificamente, para os filmes? A resposta, como ele mesmo aponta, não é fácil. Mas propõe que os afetos emergem “em conjunto com perceptos entre pessoas, espaços e coisas, portanto, em maior sintonia com as configurações de uma subjetividade pós-humana” (35). O afeto não está no autor ou no receptor, mas contida na obra. E nos filmes, mais importante do que a análise fílmica, os afetos emanam da imagem, na encenação de afetos “pictóricos” e perceptos, do conjunto de objetos, espaço, ambiente, figurino, entre outros elementos.

Nos ensaios seguintes, o autor faz uma seleção cuidadosa de longas e curtas. Os que ocupam a maior parte de sua análise são Transeunte (Eryk Rocha, 2010), Adormecidos (Clarissa Campolina, 2011) e Histórias que só existem quando lembradas (Júlia Murat, 2011). Outros exemplos são Girimunho (Helvécio Martins Jr. e Clarissa Campolina, 2012), O som ao redor (Kléber Mendonça Filho, 2013) e Elena (Petra Costa, 2014). Apesar de esses filmes não terem tido larga distribuição, todos podem ser considerados marcos do cinema não-comercial da última década e esse é um rótulo que, a meu ver, Denilson Lopes não pode ignorar. Tanto em Transeunte quanto em Adormecidos, ele destaca a relação do homem-espaço, dos “rostos que passam pelas câmeras” (51) ou a figura humana que é “um vestígio de algo que passou” (69) – é o perceber a cidade e o espaço através das sensações, da imagem-afecção. No quinto ensaio, “Ruínas pobres, cidades mortas”, o espaço torna-se, então, personagem. E são personagens que podem ser ruínas, como em Histórias que só existem quando lembradas. A decadência do espaço e da paisagem que desperta sensações e memórias para além do filme, pois “não se trata de representar a cidade, intervir na cidade, caminhar pela cidade. Entramos nas sensações e nada mais” (70). A figura humana dá lugar ao espaço.

Já no nono ensaio, “Afetos Queer”, o autor discute a relação entre arte e os estudos de “queer affect”. Ele reconhece que há trabalhos de importantes teóricos nos Estados Unidos (Eve Sedgwick, Adam Frank, Lauren Berlant, entre outros), mas que a questão é “ainda pouco explorada na América Latina” (152). Diante disso, propõe entender o afeto queer em filmes brasileiros contemporâneos a partir de uma estética de artifícios transculturais (sob o camp e o dandismo) que estejam voltados às questões de gênero no/do Brasil. A proposta fica mais clara no último capítulo “O retorno do artifício” em que ele explora a questão LGBT no Brasil em relação à produção de filmes dessa temática. Para ele há em filmes como Madame Satã (2003), por exemplo, uma construção de relações, de uma subjetividade queer “marcada pela afetação” (172).

Por fim, o livro é singular por um número de razões: parte de um marco teórico sobre afetos apoiado pela tradição norte-americana, mas que é bem aplicada à proposta do trabalho, isto é, tentar entender a rede de encontros, relações e afetos em filmes contemporâneos do Brasil que dialogaram com Denilson Lopes de forma bastante pessoal. Mais especificamente, o livro é uma reação à literatura produzida sobre o cinema contemporâneo que muitas vezes se prende à crítica convencional. De fato, como o próprio autor reconhece, nem todas as perguntadas levantas por ele podem ser respondidas, abrindo assim um leque de oportunidades para novas discussões e interpretações. Numa última observação, teria sido interessante ver um diálogo entre a proposta do autor com outras obras sobre afeto e cinema, como os já citados livros de Podalsky e Ikeda e Lima.

Obras citadas
Ikeda, Marcelo, and Lima, Dellani. Cinema de garagem: um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. Caixa Cultural, 2011.

Podalsky, Laura. The Politics of Affect and Emotion in Contemporary Latin American Cinema. Palgrave Macmillan, 2011.